Agronegócio
Irregularidade das chuvas compromete o ritmo da semeadura e aumenta preocupação com os efeitos do El Niño
Conab projeta produção de 50,89 milhões de toneladas, enquanto Imea estima 48,88 milhões
Foto por: Reprodução
A implantação da safra de soja 2026/27 em Mato Grosso enfrenta um cenário de incertezas, marcado pelo atraso no plantio, irregularidade das chuvas e aumento dos custos de produção.
Além dos riscos climáticos associados ao El Niño, os produtores terão de administrar despesas quase 7% superiores às da temporada anterior, em um momento de pressão sobre as margens de rentabilidade.
Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a semeadura avança em ritmo inferior ao registrado nos ciclos anteriores.
A principal dificuldade é a distribuição irregular das primeiras chuvas, que impede a formação de condições adequadas de umidade no solo.

Diante desse cenário, agricultores evitam acelerar o plantio para não correr o risco de perder as lavouras caso ocorram períodos de estiagem logo após a germinação.
A preocupação aumenta com a possibilidade de temperaturas elevadas e redução das precipitações durante fases decisivas do desenvolvimento da soja.
As projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) já apontam uma redução no potencial produtivo de Mato Grosso, maior produtor brasileiro da oleaginosa.
A estimativa é de uma colheita de 50,89 milhões de toneladas, volume 1,43% inferior ao da temporada anterior.
A produtividade média prevista é de 64,82 sacas por hectare, queda de 2,02%.
O recuo deverá ocorrer mesmo com a expansão de 0,60% na área cultivada, estimada em 13,08 milhões de hectares.
Trata-se do menor crescimento de área da série histórica estadual, conforme os dados apresentados.
O Imea trabalha com uma projeção mais conservadora.
O instituto estima produção de 48,88 milhões de toneladas, em uma área de 13,05 milhões de hectares, com produtividade média de 62,44 sacas por hectare.
A diferença entre as estimativas dos dois órgãos chega a 2,01 milhões de toneladas, demonstrando as incertezas em torno do desempenho da nova safra.
RISCO CLIMÁTICO — Apesar do atraso registrado em outubro, os analistas do Imea avaliam que ainda é cedo para afirmar que haverá perdas irreversíveis na produção.
O período mais crítico deverá ocorrer entre novembro e dezembro, quando parte significativa das lavouras estará nas fases de florescimento e formação de vagens.
Nessas etapas, a soja apresenta elevada necessidade de água e maior sensibilidade ao calor excessivo.
Caso se confirmem as condições de temperaturas elevadas e chuvas insuficientes associadas ao El Niño, as plantas poderão sofrer estresse hídrico, com abortamento de flores, redução na formação de vagens e menor peso dos grãos.
O resultado dependerá principalmente da regularidade das precipitações e da intensidade dos períodos de estiagem nas diferentes regiões produtoras.
CUSTO DE PRODUÇÃO — Além das preocupações climáticas, os agricultores enfrentam aumento expressivo das despesas para implantar a safra.
Levantamento do projeto Custo de Produção Agropecuária em Mato Grosso, desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MT) em parceria com o Imea, aponta que o custo total de produção da soja chegou a R$ 8.210,31 por hectare em outubro.
O valor representa alta de 6,96% em relação à temporada anterior.
Entre os componentes que mais pressionaram a planilha estão as operações mecanizadas, cujos custos aumentaram 23,85%.
O encarecimento está relacionado principalmente às despesas com óleo diesel, lubrificantes e peças de reposição, itens influenciados pelas oscilações do mercado internacional de petróleo.
Os defensivos agrícolas também ficaram mais caros, registrando elevação de 10,10% na comparação entre as safras.
Com isso, o custo operacional de custeio atingiu R$ 4.324,87 por hectare, crescimento de 3,43%.
O impacto sobre as despesas foi parcialmente compensado pela redução de 21,96% no preço médio das sementes de soja, que ajudou a conter a elevação dos gastos na fase de implantação.
MARGENS PRESSIONADAS — A combinação entre custos mais elevados e possibilidade de redução da produtividade aumenta o risco financeiro da atividade.
Com o custo total acima de R$ 8,2 mil por hectare, eventuais perdas de rendimento poderão comprometer a capacidade de recuperação dos investimentos realizados pelos produtores.
Nesse cenário, a comercialização antecipada de parte da produção, a gestão dos custos e o acompanhamento das condições climáticas ganham importância para a sustentabilidade econômica das propriedades.
Para os analistas do Imea, o comportamento das chuvas nos próximos dois meses será decisivo para determinar se o atraso inicial ficará restrito ao calendário de plantio ou se terá reflexos mais significativos sobre a colheita de Mato Grosso.
Fonte: DC
Escrito por: MARIANNA PERES
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