30 de junho de 2026

Nova Ubiratã

Economia

Estados 'bolsonaristas' serão os mais afetados por tarifas de Trump, mesmo com isenções

Foto por: Reprodução

tarifaço de 50% anunciado pelo presidente americano Donald Trump sobre produtos brasileiros, oficializado na quarta-feira (30/7) pelo governo americano, pode ter impacto econômico maior nos Estados brasileiros em que houve mais apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro na última eleição presidencial.

O valor real do impacto ainda não foi calculado. E nem toda exportação será afetada: o texto do decreto que formaliza a medida traz uma série de exceções às taxações. Os setores de petróleo, polpa e suco de laranja e aviões, por exemplo, aparecem na lista de produtos brasileiros isentos.

O decreto de Trump detalha 694 produtos específicos isentos. Em geral, minerais, produtos energéticos, metais básicos, fertilizantes, papel e celulose, alguns produtos químicos e bens para aviação civil estão isentos da tarifação adicional.

Sete Estados brasileiros concentraram, no ano passado, mais de 80% de toda a exportação para os EUA: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Desses, com exceção de Minas, em que Lula ganhou por margem apertada (50,2% dos votos válidos), todos deram vitória a Bolsonaro no segundo turno do pleito de 2022 (veja mais detalhes no gráfico), segundo dados compilados pela BBC News Brasil.

Carne, frutas e café não entraram na lista de exceções - produtos exportados em grandes quantidades pelos Estados que concentram eleitores de Bolsonaro.

Na terça-feira (29/7) o secretário de Comércio dos Estados Unidos abriu possibilidade de tarifa zero para produtos agrícolas que os americanos não cultivam — algo que seria aplicado a todos os parceiros comerciais, não apenas o Brasil.

As novas tarifas entrarão em vigor em sete dias, a partir do dia 6 de agosto. Antes a previsão era que as novas taxas seriam implementadas já na sexta-feira (1º/8).

Foram cerca de US$ 40 bilhões exportados no ano passado aos EUA, sendo os mais comuns os combustíveis minerais, café, ferro, aço, carnes e outros. Só São Paulo concentra mais de 30% dessas exportações - foram US$ 13,5 bilhões em 2024, ao todo.

Um dos motivos citados por Trump para a taxação foi o tratamento dado a Bolsonaro pela Justiça brasileira no processo em que ele é acusado de tramar um golpe de Estado. O ex-presidente chegou a fazer uma publicação no X em que sugere que a sua anistia seria uma forma de resolver a ameaça das tarifas.

"Em havendo harmonia e independência entre os Poderes nasce o perdão entre os irmãos e, com a anistia também a paz para a economia", escreveu Bolsonaro, em postagem no X em 13 de julho.

A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) calcula que a lista de exceções ao tarifaço representa 43,4% do total das exportações brasileiras.

"Embora essas exceções atenuem parcialmente os efeitos da tarifa de 50% anunciada, a Amcham reforça que ainda há um impacto expressivo sobre setores estratégicos da economia brasileira", diz nota da entidade.

"Produtos que ficaram de fora da lista continuam sujeitos ao aumento tarifário, o que compromete a competitividade de empresas brasileiras e, potencialmente, cadeias globais de valor."

Para cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil, o efeito político do tarifaço pode desgastar a imagem do bolsonarismo, mas abre uma oportunidade para presidenciáveis à direita no espectro político para se descolarem da imagem do ex-presidente.

Eduardo Bolsonaro diz que tarifas foram 'resposta legítima' dos EUA

O filho do ex-presidente Jair Bolsonardo, Eduardo, publicou em sua conta no X uma defesa das tarifas aplicadas por Trump.

Para ele, as medidas "foram uma resposta legítima às agressões do regime brasileiro contra interesses e cidadãos americanos".

Disse ainda que "a insistência na repressão política levará a um isolamento crescente, com efeitos duradouros sobre a economia e as relações internacionais do Brasil". Eduardo assina o texto como "deputado federal em exílio."

O aumento da taxação das exportações foi anunciado poucos meses após Eduardo Bolsonaro se licenciar do cargo de deputado federal e se mudar para os Estados Unidos.

Ele disse que se dedicaria em tempo integral a convencer o governo Trump a atuar pela anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro no Brasil e obter sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, sancionado pela Lei Magnitsky.

Ele chegou a publicar uma nota dizendo que a carta de Trump "apenas confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade."

Em suas redes, Eduardo tem feito críticas a políticos que criticaram o tarifaço dos EUA sobre os produtos brasileiros, mas não se posicionam pela anistia de seu pai e dos presos pelas manifestações de 8 de janeiro.

"É impressionante que políticos se movam mais orientados por questões econômicas do que de liberdade", escreveu no X.

Em maio, o STF abriu inquérito para investigar Eduardo por suas ações nos EUA.

O inquérito foi instaurado a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que diz que "as retaliações buscadas, concatenadas e anunciadas intrepidamente contra as autoridades responsáveis pela condução dos casos mencionados nesta peça se assomam como graves atos de interferência sobre o livre exercício dos Poderes Constitucionais."

Eduardo Bolsonaro disse que medidas 'foram uma resposta legítima às agressões do regime brasileiro contra interesses e cidadãos americanos'

'Janela de oportunidade para a direita'

O professor de Ciência Política da FGV Carlos Pereira afirma que as tarifas impostas por Trump podem afetar setores que historicamente são aliados de Bolsonaro.

"Esse tarifaço teve como motivação uma tentativa de fragilizar a suprema corte perante a sociedade e, consequentemente, fortalecer a direita. Só que o tiro saiu pela culatra, não foi isso que aconteceu", diz Pereira.

"Como demonstrado nesses dados levantados pela BBC, vários desses Estados em que Bolsonaro foi muito bem votado são os que mais vão perder."

Ele vê a situação, no entanto, como uma janela de oportunidade para outras lideranças de direita.

"A direita tem uma chance de ouro de se livrar de Bolsonaro. É algo que a esquerda teve no passado, quando Lula foi preso. Mas não conseguiu e Lula conseguiu sendo a principal figura carismática da esquerda."

'Direita ficou batendo cabeça nas redes'

Beto Vasques, diretor de relações institucionais do Instituto Democracia em Xeque e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), avalia que a disputa narrativa sobre o tarifaço nas redes tem sido desfavorável a Bolsonaro.

Ele citou um estudo produzido pela organização que coordena, entre 10 e 18 de julho, que avaliou a quantidade de interações sobre o assunto em cinco redes sociais (Facebook, Instagram, Youtube, X e Tiktok).

Os usuários foram divididos nos seguintes grupos: conservadores, progressistas, imprensa e outros.

Segundo o levantamento, houve três vezes mais interações dos conservadores do que dos progressistas, mas com mensagens divergentes e até contraditórias entre si.

"Nesse episódio do Trump, até porque a realidade facilitava, a esquerda passou uma mensagem muito simples: a de que o vilão é Donald Trump e que o propósito é salvar a pele da família Bolsonaro da cadeia. Uma mensagem simples, com vilão característico", disse.

"Enquanto isso, direita e extrema direita ficaram batendo cabeça, uns dizendo que o vilão era Moraes, outros que era o Lula. Quem tem dois inimigos não tem nenhum."

Uma pesquisa divulgada pela Quaest/Genial Investimentos após o anúncio do tarifaço indicou que a maioria dos entrevistados (59%) não acredita que Trump é capaz de inverter a inelegibilidade de Bolsonaro.

Mesmo entre eleitores do ex-presidente há um empate técnico: 46% acreditam que pode haver impacto, contra 45% que disseram que não haverá mudança.

Pesquisas da Quaest/Genial também indicam efeito negativo do tarifaço sobre as pretensões eleitorais de Bolsonaro em 2026, e uma melhora na popularidade de Lula, que antes estava em queda.

No último levantamento, Lula aparece vencendo Bolsonaro num segundo turno, enquanto na pesquisa anterior eles apareciam empatados. Mas Carlos Pereira, professor da FGV, avalia que, com o tempo, os impactos econômicos do tarifaço podem acabar prejudicando Lula.

"A questão é saber, se no médio e longo prazo, quando essas empresas começarem de fato a perder e houver impacto na economia, se o governo vai conseguir sustentar essa sensação positiva por muito tempo", diz.

"Eu não acho que é sustentável. No curto prazo foi ótimo para o governo, que estava perdido, sem narrativa. Em que pese pesquisas de opinião ainda mostrarem que a taxa de rejeição ao governo é maior do que a aprovação, mas a diferença diminuiu."

Fonte: BBC News Brasil em Londres

Escrito por: Luiz Fernando Toledo Role,

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