13 de outubro de 2026

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ELEIÇÕES 2026: Cuiabá ajudou a escrever a história da urna eletrônica no Brasil

Servidores do TRE-MT desenvolveram uma “máquina de votar”. Cuiabá virou laboratório para a tecnologia

Sistema completa três décadas de uso oficial nas eleições brasileiras

Foto por: Reprodução

A urna eletrônica chega às eleições de 2026 completando 30 anos de uso oficial no Brasil. Adotado pela primeira vez em larga escala nas eleições municipais de 1996, o equipamento mudou a forma de votar e de apurar os resultados no país. Mas, antes de chegar a milhões de brasileiros, parte dessa história passou por Cuiabá, onde servidores do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) desenvolveram e testaram um dos primeiros protótipos do que viria a se transformar na urna utilizada atualmente.

A participação mato-grossense nesse processo é recuperada pelo jornalista Edilson Almeida, que acompanhou a trajetória da chamada “máquina de votar”. Segundo seu relato, o servidor Luiz Roberto da Fonseca e uma equipe do TRE-MT começaram, ainda em 1992, a desenvolver uma alternativa para substituir as cédulas de papel e reduzir a interferência humana na apuração.

INFO urna eletrônica

 

O equipamento era bastante diferente das urnas atuais. Utilizava um pequeno terminal numérico semelhante aos encontrados em bancos, conectado a um computador portátil. A proposta, entretanto, já continha o princípio que orientaria o sistema eletrônico: permitir uma votação simples e tornar a apuração mais rápida.

A partir de 1994, o protótipo passou a ser levado para eleições de associações de moradores, entidades de classe e instituições de ensino. Mais do que testar a tecnologia, a intenção era descobrir como pessoas sem familiaridade com computadores reagiriam ao equipamento.

Cuiabá tornou-se, na prática, um laboratório aberto.

“Estávamos em uma fase em que chamávamos ‘máquina de votar’. Era um terminalzinho desses bancários, em que a gente fazia eleições nas associações para mostrar a facilidade desse mecanismo”, recordou Luiz Roberto da Fonseca, conforme o relato reunido por Edilson Almeida.

TESTE EM CUIABÁ
Um dos momentos decisivos ocorreu em 8 de abril de 1994, aniversário de Cuiabá. A Escola Estadual Ana Maria do Couto, no CPA II, recebeu uma grande simulação eleitoral promovida pelo TRE-MT e apoiada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A expectativa era reunir aproximadamente 6 mil eleitores. Em vez de candidatos, as cédulas traziam nomes de times e jogadores de futebol. Diferentes configurações foram testadas para avaliar o tempo de votação, a apuração e a transmissão dos resultados.

O então presidente do TSE, ministro Sepúlveda Pertence, participou pessoalmente da experiência. Também estiveram na simulação o então corregedor-geral eleitoral Aristides Junqueira e o governador de Mato Grosso à época, Jayme Campos.

Segundo os registros recuperados por Edilson Almeida, Pertence levou dois minutos e 14 segundos para votar em uma seção que utilizava apenas uma urna. Em outra configuração, com duas máquinas, concluiu o procedimento em 48 segundos.

Ainda não era a eleição eletrônica que seria adotada nacionalmente dois anos depois. A experiência, porém, colocou Cuiabá entre os locais em que a Justiça Eleitoral buscava soluções para diminuir o tempo de votação e acelerar a apuração.

PROJETO NACIONAL
Em 1995, o protótipo desenvolvido em Mato Grosso foi apresentado ao TSE juntamente com modelos produzidos no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. No mesmo período, Luiz Roberto da Fonseca passou a integrar a comissão nacional criada para discutir as características do novo equipamento.

O equipamento recebeu inicialmente o nome técnico de Coletor Eletrônico de Votos (CEV). Luiz Roberto, porém, já empregava uma denominação mais simples: urna eletrônica, expressão que acabaria incorporada ao vocabulário eleitoral brasileiro.

O relato de Edilson Almeida destaca ainda a participação da imprensa mato-grossense na fase de testes. O jornalista Américo Corrêa, que trabalhou durante dez anos na comunicação do TRE-MT, lembra que as experiências realizadas em bairros, escolas e entidades despertaram grande interesse dos profissionais que acompanhavam a política estadual.

ESTREIA EM 1996
A estreia oficial ocorreu nas eleições municipais de 1996. Naquele ano, a votação eletrônica chegou a 57 municípios brasileiros e cerca de 32,5 milhões de eleitores, aproximadamente um terço do eleitorado nacional.

A expansão foi rápida. Dois anos depois, 537 municípios e aproximadamente 61,1 milhões de eleitores já utilizavam o sistema. Em 2000, a votação eletrônica alcançou todos os municípios brasileiros.

Em Mato Grosso, o processo também foi gradual. Depois da experiência de Cuiabá em 1996, a informatização avançou em 1998 para Sinop, Cáceres, Rondonópolis e Várzea Grande. A cobertura integral das seções do Estado foi consolidada posteriormente.

A interiorização trouxe um desafio particular. Com população distribuída por um território de grandes dimensões, a Justiça Eleitoral passou a transportar equipamentos para comunidades ribeirinhas, vilarejos isolados e aldeias indígenas, utilizando barcos, veículos e, em determinadas regiões, apoio aéreo.

Para eleitores indígenas e moradores de áreas de difícil acesso, a substituição da cédula escrita pelo teclado numérico também reduziu uma barreira. O eleitor passou a digitar o número e conferir na tela a fotografia do candidato antes de confirmar sua escolha.

30 ANOS DEPOIS
Três décadas depois da estreia, a urna de 2026 é muito diferente dos primeiros protótipos experimentados em Cuiabá.

Ao longo desse período, foram incorporados recursos como fotografia dos candidatos, áudio para pessoas com deficiência visual, biometria, Registro Digital do Voto e mecanismos adicionais de auditoria e segurança. Desde 1996, 14 modelos diferentes já foram utilizados pela Justiça Eleitoral.

Para as eleições deste ano, estão previstas 563.910 urnas, distribuídas entre quatro gerações: UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022. Os dois modelos mais recentes representam 77% do total. A interface também ganhou mudanças voltadas à acessibilidade, com fonte de maior legibilidade, reorganização das telas, barra de progresso e ampliação das informações apresentadas em Libras.

O sistema também possui etapas de fiscalização. O código-fonte é disponibilizado para entidades fiscalizadoras, e o TSE realiza Testes Públicos de Segurança antes dos pleitos. As urnas são posteriormente preparadas e lacradas em cerimônias públicas realizadas pela Justiça Eleitoral.

Antes do início da votação, cada equipamento emite a chamada zerésima, documento que demonstra que não existem votos registrados. Ao término, é impresso o boletim de urna com a quantidade de votos daquela seção, permitindo a conferência dos números divulgados.

Em 30 anos, portanto, a máquina que hoje faz parte da rotina eleitoral brasileira percorreu um longo caminho. E, como mostra o relato de Edilson Almeida, Mato Grosso ocupa um capítulo próprio dessa história: antes de milhões de brasileiros se acostumarem ao teclado, à fotografia do candidato e à tecla verde de confirmação, Cuiabá já colocava a “máquina de votar” diante dos eleitores para descobrir como seria a eleição do futuro.

Fonte: DC

Escrito por: MARIA CLARA SILVA

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