08 de julho de 2026

Nova Ubiratã

Política

BATALHA PELO PAIAGUÁS: WF não tem perfil de Governo; Pivetta precisa ir além do Mauro.

Onofre Ribeiro aponta contraste entre experiência legislativa de Wellington e perfil gestor de Pivetta

O jornalista e analista político Onofre Ribeiro, que conversou com a reportagem sobre o cenário político nacional e estadual

Foto por: Yasmin Silva/MidiaNews

O jornalista e analista político Onofre Ribeiro avaliou que a disputa pela sucessão do Palácio Paiaguás deve ser marcada pelo contraste entre os perfis do senador Wellington Fagundes (PL) e do vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos).

 

Wellington não tem perfil Executivo. O perfil dele é legislativo. Lá no passado, o Filinto Müller era um extraordinário senador de Mato Grosso, mas não conseguiu ser governador

Ao MidiaNews, Onofre afirmou que o senador “não tem perfil Executivo”, enquanto Pivetta precisará mostrar independência em relação ao governador Mauro Mendes (União) para se viabilizar eleitoralmente.

“Wellington não tem perfil Executivo. O perfil dele é legislativo. Lá no passado, o Filinto Müller era um extraordinário senador de Mato Grosso, mas não conseguiu ser governador”, afirmou.

O outro perfil que é o do Otaviano Pivetta é um perfil tipicamente Executivo. [...] Tem que conversar com a sociedade nesse porquê dele. Não basta ele estar conectado com o Mauro Mendes, porque já não se transferem mais votos como antigamente”, acrescentou.

Durante a entrevista, Onofre também analisou outros quadros da política de Mato Grosso e comentou sobre a influência que a família e o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) terão na disputa eleitoral do Estado, que é majoritariamente bolsonarista. Ele falou ainda sobre a representatividade de Mato Grosso no Congresso.

MidiaNews - A política eleitoral de Mato Grosso depende muito do cenário nacional. Devido a ser um Estado bolsonarista, qual é o impacto da prisão de Jair Bolsonaro para a eleição de 2026?

 

Onofre Ribeiro - É preciso colocar umas coisas que a gente se esqueceu. Quando houve a eleição em 2022, Mato Grosso era bolsonarista, uns 70%. De lá para cá, muita coisa mudou. Nem todo mundo que votou no Bolsonaro naquela eleição hoje é bolsonarista. É de direita. Muita gente que votou no Lula hoje é de esquerda, não é mais lulista, como também não é mais bolsonarista. 

A questão da prisão do Bolsonaro, isso já é um fato consumado. O que tinha que acontecer na política já aconteceu. Agora, vamos ter um novo rearranjo da política. A prisão dele tem talvez essa função, um rearranjo da política nacional. Tanto é que imediatamente lançou o filho como candidato a presidente.

 

A questão não é o filho. O filho foi apenas para ocupar espaço na discussão política. E ao mesmo tempo cutuca a esquerda para a esquerda se movimentar. Estava muito acomodada. Eles vão ter que se mexer.

A política de Mato Grosso não tem vida própria. A política de Mato Grosso, depende muito do que acontecer no nível nacional, vão acontecer os arranjos nos níveis estaduais. A gente está vendo hoje discussões de política, candidaturas, mas não vale para o ano que vem, porque está dependendo dos arranjos nacionais. E o que a gente está vendo, é um grande rearranjo nacional, tanto político como institucional. 

 

Onofre Ribeiro - Você não pode ignorar que na eleição de 2022 Bolsonaro teve 58 milhões de votos, isso não se joga fora. Esse capital de votos aumentou e ao mesmo tempo diminuiu. Muita gente que votou nele não vota mais e muita gente que votou no Lula não vota mais e vota nele. E os que votaram nele provavelmente votariam no Lula. Houve aí uma mudança de espaço dentro do campo político.

 

58 milhões de votos permanecem um pouquinho oscilados, mas quem tem esse capital de voto tem poder. Tem poder de mobilizar as ruas. E no Brasil mobilizar a rua é sinal de poder. 

 

Todas as vezes, mesmo depois de preso em casa primeiramente, o pessoal dele conseguiu encher as ruas. Então, ele tem peso. Está provocando a esquerda a se mexer.

 

Ele colocou o Flávio Bolsonaro como o herdeiro dele, mas tenho a impressão que ele sabe que tem nomes muito fortes no país. O país está mudando. Você tem nomes como o Tarcísio, como o Zema, até como o próprio Mauro Mendes. Embora Mato Grosso não tenha essa representação, mas é esse perfil de governo que a gente vai ter no país no futuro. Não mais aquele político, e aí não cabe nem Bolsonaro, nem Lula, de subir no palanque, aquilo já era, porque que a sociedade quer coisa diferente. 

 

Pode interferir dando as cartas, dando os sinais, nem sempre participando como agente atuante. Eu penso que o Bolsonaro e a família Bolsonaro, mas especialmente o Bolsonaro, é uma figura muito forte. Foi presidente da República, a eleição acabou e ele não saiu da linha do pensamento, está no imaginário.

 

O PT não conseguiu, no governo, se desligar do Bolsonaro. Brigou o tempo inteiro, jogou a briga para o Supremo Tribunal Federal. O Bolsonaro está nas discussões políticas todos os dias desde que deixou o governo, desde a eleição.  Então ele tem muito peso para interferir na eleição.

   

MidiaNews - O fato dos partidos do Centrão se afastarem da família Bolsonaro impacta na definição das candidaturas majoritárias aqui em Mato Grosso?

 

Onofre Ribeiro - Mato Grosso não tem peso do Centrão. Mato Grosso é um Estado que sempre foi marcado por lideranças individuais. Desde que o Estado foi separado, do lado do Mato Grosso do Sul e começou uma política própria. Júlio Campos foi o primeiro governador eleito. Uma liderança pessoal muito forte. Depois veio Carlos Bezerra, uma liderança muito forte. Veio Dante [de Oliveira], uma liderança muito forte. Veio Blairo [Maggi], uma liderança muito forte.  Veio Pedro Taques, uma liderança muito forte. E agora Mauro Mendes, uma liderança muito forte. Aqui é de liderança locais.

A dependência de Mato Grosso em relação à política nacional é porque lá vai ter que se reorganizar os partidos. Aqui não tem Centrão? Tem algumas pessoas. Lá, o Centrão é o fiel da balança. É fisiológico, é cretino, só está a fim de interesses, mas isso também está se esgotando. E o Centrão vai ter que definir e virar partido. 

Nossos parlamentares são fraquíssimos, eles não representam o Estado no seu valor. Tem três senadoras que somando dá um, você tem oito deputados federais que somando vai dar dois, não tem peso e não tem ousadia

O ano que vem, você vai ver surgir uma discussão nova do Brasil, que é a reformação de partidos. Porque temos 34, 35 partidos, nenhum deles é um partido político. São arranjos de grupos para somar em blocos de força e explorar a máquina pública, explorar obras públicas, explorar governo, explorar ministério, explorar dinheiro público, praticar corrupção, que é uma vergonha.

Isso esgotou, esse modelo esgotou. Tanto esgotou que o Congresso perdeu toda a força dele para o Supremo Tribunal Federal e para o Ministério Público.

Então, quando eu falo em re-arranjo no nível nacional,  vai ter que se redesenhar a política brasileira e se criar partidos.

Escrito por: VITÓRIA GOMES DA REDAÇÃO

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