Política
Estreante nas urnas, escritor aposta em pacificação e gestão emocional; após o debate da Band, ganhou milhões de seguidores, mas ainda registra entre 2% e 4% nas pesquisas
Augusto Cury passou décadas escrevendo e falando sobre ansiedade, inteligência emocional, sonhos, conflitos humanos e os labirintos da mente. Agora, aos 67 anos, o médico psiquiatra e autor de best-sellers decidiu enfrentar um dos ambientes mais emocionalmente carregados do Brasil: a política nacional.
Candidato à Presidência da República pelo Avante, Cury disputa uma eleição pela primeira vez em 2026. Ele tenta ocupar o espaço de eleitores cansados do confronto entre lulismo e bolsonarismo, apresentando-se como uma alternativa de centro, comprometida com a pacificação política e contrária à radicalização.
Natural de Colina, no interior de São Paulo, Augusto Jorge Cury construiu sua trajetória distante dos corredores de Brasília. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, tornou-se conhecido nacional e internacionalmente como escritor, pesquisador e conferencista.
Autor de dezenas de livros, entre eles “O Vendedor de Sonhos”, concentrou sua produção em temas relacionados ao comportamento humano, à educação e à gestão das emoções. A entrada na política representa uma mudança profunda na trajetória de alguém que nunca exerceu mandato nem ocupou cargo eletivo.
Cury procura definir seu posicionamento por meio da expressão “mente capitalista e coração social”. A formulação resume a defesa de um ambiente favorável à iniciativa privada, ao empreendedorismo e à geração de riqueza, combinada com políticas públicas voltadas à proteção das parcelas mais vulneráveis da população.
Sua plataforma, no entanto, não está restrita à saúde emocional. Entre as propostas apresentadas estão o equilíbrio das contas públicas, a redução de despesas, mudanças no sistema educacional, o incentivo ao empreendedorismo e políticas específicas para pessoas neurodivergentes.
O candidato também defende a implantação do semipresidencialismo. Nesse sistema, parte da administração cotidiana seria conduzida por um primeiro-ministro, enquanto o presidente permaneceria responsável pelas funções estratégicas de Estado.
Cury posicionou-se ainda contra a reeleição para cargos executivos e defendeu mudanças institucionais, inclusive no funcionamento do Poder Judiciário. Na segurança pública, procura evitar a retórica de confronto, mas sustenta a necessidade de fortalecer o Estado no combate ao crime organizado.
As propostas constam de manifestações públicas e da cobertura do registro de sua candidatura, na qual declarou patrimônio de R$ 242.281.162,52 à Justiça Eleitoral. A maior parte está relacionada a participações empresariais, imóveis, investimentos e créditos concedidos a empresas. As informações foram divulgadas a partir dos dados apresentados ao TSE.
A candidatura ganhou uma dimensão diferente depois do primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Band em 23 de agosto.
Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não compareceram. O encontro reuniu Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos.
Cury chegou a anunciar que não participaria do debate em protesto contra as ausências dos dois candidatos que lideram as pesquisas. Após conversar com representantes da emissora, voltou atrás e entrou no estúdio.
Durante o programa, evitou transformar sua participação em uma sequência de ataques pessoais. Falou sobre pacificação, educação, inclusão de estudantes neurodivergentes, saúde emocional dos trabalhadores, corrupção e equilíbrio nas relações institucionais.
Enquanto Renan Santos adotou uma postura mais confrontadora e Ronaldo Caiado recorreu à experiência acumulada em cargos públicos, Cury tentou construir uma identidade própria: a de um candidato que pretende aplicar à política os conceitos de gestão emocional que marcaram sua carreira.
A estratégia provocou repercussão imediata fora do estúdio. Nos dias seguintes, Cury tornou-se o presidenciável mais pesquisado no Google entre os candidatos mais bem colocados nos levantamentos eleitorais.
No Instagram, seu perfil passou de aproximadamente 8,3 milhões para 10,7 milhões de seguidores em uma semana, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo. O crescimento ampliou as comparações com fenômenos eleitorais anteriores e fortaleceu o discurso de uma possível terceira via.
A repercussão digital colocou o nome de Augusto Cury dentro da conversa presidencial, mas ainda não foi convertida, na mesma proporção, em intenções de voto.
A pesquisa PoderData/Aya divulgada em 27 de agosto mostrou Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 35%. Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos apareceram com 4% cada um.
O levantamento ouviu 2.400 eleitores entre 23 e 26 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04974/2026. Confira os resultados do PoderData/Aya.
Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 24 de agosto, Cury registrou 2%, enquanto Lula apareceu com 41% e Flávio Bolsonaro com 37%.
O levantamento entrevistou 2.006 pessoas por telefone, entre 21 e 23 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no TSE sob o número BR-09028/2026. Veja os números da pesquisa BTG/Nexus.
Os resultados expõem a principal barreira da candidatura: ser amplamente conhecido não significa possuir, automaticamente, uma base eleitoral competitiva.
Cury precisa transformar leitores, seguidores e pessoas interessadas em sua trajetória em eleitores dispostos a confiar-lhe o comando do país.
Cury afirma não pretender construir uma carreira política tradicional. Antes do início oficial da campanha, declarou que esta seria sua única experiência eleitoral e que não precisava ocupar um cargo público para consolidar sua trajetória profissional.
Também prometeu formar um governo com pessoas de diferentes áreas e correntes políticas, priorizando competência técnica e ausência de histórico de corrupção.
A condição de outsider reforça sua imagem de novidade, mas também expõe sua principal fragilidade.
Administrar o Brasil exige mais do que reconhecimento público, capacidade intelectual ou sucesso empresarial. O presidente precisa negociar permanentemente com o Congresso Nacional, governadores, partidos, Poder Judiciário e diferentes setores econômicos e sociais.
Cury terá de demonstrar que alguém sem experiência em cargos públicos consegue compreender e conduzir essa complexa engrenagem institucional. Precisará, ainda, apresentar uma estrutura partidária capaz de sustentar sua candidatura em todo o país.
O próximo teste será neste sábado (29), quando Augusto Cury participará da rodada de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência.
A sabatina está prevista para começar às 21h05, no horário de Brasília, depois do Jornal Nacional. A entrevista será conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, com transmissão simultânea pela TV Globo, GloboNews e g1. A agenda foi confirmada pela emissora.
A exposição nacional poderá mostrar se o crescimento registrado depois do debate da Band foi apenas uma reação momentânea das redes sociais ou o início de um movimento político mais consistente.
Augusto Cury já demonstrou capacidade para despertar curiosidade, conquistar audiência e mobilizar milhões de seguidores.
Agora enfrenta um desafio muito mais complexo: convencer o eleitor de que sua experiência estudando a mente humana pode ser convertida em capacidade para administrar um país continental, politicamente fragmentado e economicamente desigual.
A eleição de 2026 dirá se Cury será apenas um personagem surpreendente da campanha ou se o escritor que passou a vida falando sobre sonhos conseguirá transformar o maior deles em um projeto eleitoral competitivo.
Fonte: MT É NOTÍCIA
Escrito por: Redação
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