08 de setembro de 2026

Nova Ubiratã

Política

Nem direita nem esquerda têm cheque em branco: Brasil precisa cobrar resultados

Entre a defesa do mercado e a proteção social, o debate político precisa abandonar a lógica das torcidas e avaliar governos por eficiência, responsabilidade, democracia e resultado

Durante décadas, a política brasileira foi marcada pela disputa entre diferentes correntes ideológicas. Nos últimos anos, porém, essa divisão ganhou contornos ainda mais intensos. Direita e esquerda deixaram, em muitos momentos, de representar apenas maneiras distintas de compreender o Estado, a economia e a sociedade e passaram a funcionar como identidades políticas quase irreconciliáveis.

Nesse ambiente, uma pergunta aparece com frequência: afinal, entre direita e esquerda, qual seria a menos ruim?

Talvez a própria pergunta revele parte do problema.

Escolher um governante apenas porque ele se apresenta como representante da direita ou da esquerda significa reduzir uma decisão extremamente complexa a um rótulo. A ideologia importa porque ajuda a compreender quais valores orientam determinado projeto político. Mas jamais deveria substituir critérios como competência, honestidade, capacidade administrativa, responsabilidade fiscal, compromisso social e respeito às instituições democráticas.

O que a direita pode oferecer — e onde pode errar

De maneira geral, correntes de direita defendem maior liberdade econômica, propriedade privada, estímulo ao empreendedorismo, segurança jurídica, responsabilidade fiscal e menor interferência estatal na economia.

São princípios relevantes.

Nenhum país consegue gerar empregos de forma sustentável sem empresas, investimentos, produtividade e um ambiente econômico minimamente previsível. Também não existe governo capaz de gastar indefinidamente sem considerar a arrecadação, a dívida pública e a capacidade de financiamento do Estado.

Mas a direita também precisa reconhecer os próprios riscos.

Reduzir a burocracia não significa eliminar a fiscalização. Defender empresas não pode representar a concessão de privilégios a grupos econômicos. Diminuir o tamanho do Estado não deve signific abandonar a saúde, a educação, a segurança pública ou a assistência às pessoas que realmente necessitam.

O mercado pode ser eficiente em diferentes áreas, mas não consegue, sozinho, corrigir todas as desigualdades existentes em uma sociedade.

O que a esquerda pode oferecer — e onde pode errar

A esquerda, historicamente, concentra maior atenção na redução das desigualdades, na proteção dos trabalhadores, no fortalecimento dos serviços públicos, no combate à pobreza e na presença do Estado como instrumento de equilíbrio social.

Também são preocupações legítimas.

Uma criança que nasce em uma família pobre não escolheu sua condição econômica. Garantir educação, saúde, alimentação e oportunidades mínimas não deve ser compreendido apenas como gasto público. Quando bem planejadas, essas políticas representam investimentos sociais e econômicos capazes de transformar gerações.

Entretanto, existe um limite que nenhuma ideologia consegue revogar: alguém precisa financiar o Estado.

Hospitais, escolas, universidades, segurança pública, infraestrutura e programas sociais custam dinheiro. Quando as despesas crescem permanentemente sem aumento correspondente da capacidade econômica do país, as consequências acabam aparecendo: elevação da dívida, aumento de impostos, redução dos investimentos ou pressões inflacionárias.

Responsabilidade social sem responsabilidade econômica pode, no médio e longo prazo, prejudicar justamente as pessoas que deveria proteger.

O problema pode estar além da divisão ideológica

Existe uma questão ainda mais importante: o Brasil frequentemente discute quem deve controlar o Estado, quando deveria avaliar, com o mesmo rigor, como o Estado está funcionando.

Não importa se o prefeito é de direita ou de esquerda quando falta medicamento na unidade de saúde.

Pouco interessa a ideologia do governador quando uma obra pública consome milhões de reais e permanece abandonada.

Não serve ao cidadão o discurso partidário de um parlamentar que passa quatro anos sem fiscalizar adequadamente o Poder Executivo.

Também não basta um presidente apresentar indicadores econômicos positivos se uma parcela expressiva da população não percebe melhoria concreta nas condições de vida.

Governar significa estabelecer prioridades, administrar recursos públicos, prestar contas e produzir resultados.

Corrupção não tem ideologia

Outro problema recorrente na política brasileira é a seletividade moral.

Quando uma denúncia envolve um adversário, surgem imediatamente pedidos de investigação, afastamento e punição. Quando o mesmo tipo de acusação atinge alguém do próprio grupo político, aparecem justificativas, relativizações e tentativas de desacreditar os responsáveis pela apuração.

Esse comportamento pode ser observado em diferentes campos ideológicos.

A corrupção, entretanto, não muda de natureza conforme a legenda partidária. Se determinada prática é errada quando cometida pela esquerda, continua errada quando praticada pela direita. Se um abuso institucional é inaceitável contra o candidato de nossa preferência, também deve ser rejeitado quando atinge aquele em quem jamais votaríamos.

Democracia exige coerência, inclusive quando essa coerência contraria interesses eleitorais.

Político não deve ter torcida organizada

É legítimo admirar uma liderança política. O problema começa quando a admiração se transforma em devoção e elimina a capacidade crítica do cidadão.

Presidentes, governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores não são celebridades contratadas para representar nossas emoções. São agentes públicos temporariamente investidos de poder.

E todo poder precisa ser fiscalizado.

O eleitor deveria ser capaz de afirmar: “Votei nele, mas nessa decisão está errado”. Da mesma forma, também deveria reconhecer: “Não votei nele, mas, nesse caso, agiu corretamente”.

Essa capacidade de separar avaliação pública de preferência pessoal representa maturidade democrática.

O que o cidadão pode fazer para melhorar a política?

O Brasil não precisa eliminar a direita, a esquerda ou o centro. As divergências fazem parte da democracia e são necessárias para que diferentes visões da sociedade sejam representadas.

O que o país precisa é elevar o nível dessas divergências.

Uma sociedade moderna pode combinar responsabilidade fiscal com proteção social; iniciativa privada forte com serviços públicos eficientes; liberdade econômica com fiscalização; segurança pública firme com respeito às garantias individuais; desenvolvimento econômico com redução das desigualdades.

Também é necessário cobrar metas verificáveis de governos e representantes políticos.

Quanto determinada política pública custa? Quantas pessoas são beneficiadas? Qual resultado foi efetivamente alcançado? Existe uma alternativa mais eficiente? O programa deve continuar? O dinheiro aplicado corresponde ao benefício entregue à população?

Essas perguntas são mais importantes do que saber qual partido inaugurou determinada iniciativa.

A melhor escolha é aquela que aceita ser cobrada

Então, qual seria a menos ruim: direita ou esquerda?

Não existe uma resposta universal.

A melhor escolha será aquela que, em determinada eleição, apresentar propostas responsáveis, pessoas preparadas, resultados anteriores verificáveis e compromisso verdadeiro com as instituições democráticas e o interesse público.

Pode estar na direita. Pode estar na esquerda. Pode estar no centro.

O cidadão não deveria entregar antecipadamente seu voto a nenhuma dessas posições. Antes de escolher, precisa perguntar:

O candidato sabe administrar?

Possui histórico de resultados?

As propostas cabem no orçamento?

Respeita quem pensa de maneira diferente?

Aceita investigações quando elas envolvem seus próprios aliados?

Defende as instituições democráticas mesmo quando as decisões contrariam seus interesses?

Está disposto a prestar contas de cada centavo do dinheiro público?

Se as respostas forem negativas, o problema deixa de ser ideológico. Passa a ser de competência, caráter e compromisso público.

Talvez seja esse o próximo passo que o Brasil precisa dar: não acabar com a direita ou a esquerda, mas encerrar a prática do cheque em branco ideológico.

Governo não precisa de torcida.

Precisa de cobrança, fiscalização e resultado.

Uma democracia saudável não exige que todos pensem da mesma forma.

Exige que nenhum político esteja acima da crítica apenas porque veste a camisa do nosso lado.

Fonte: MT É NOTÍCIA

Escrito por: Redação

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